Depois de muito meditar (e porque as insónias dão é para isso), cheguei à conclusão que sobre a experiência do mergulho propriamente dito, ainda ninguém escreveu no nosso “Mar da Chincha” e porque ninguém se chega à frente - começo a desconfiar, que qual S. Francisco, eu estou mas é a pregar para os peixinhos – aqui vai o post.
Para começar, nunca me passou pela ideia tirar um curso de mergulho com “botija” (respirem fundo, era só uma piada e eu até posso porque o meu tio é distribuidor da GALP – Mário Barroso, Lda), mas como não tinha nada para fazer durante as chamadas “férias” (tenho que ver se a definição ainda se mantém ao fim de 7 anos sem sequer as imaginar!) a não ser trabalhar, lá disse que sim! Depois logo arranjava uma maneira de dizer que tinha alguns problemas de falta de ar mesmo à superfície, quanto mais debaixo de água e a respirar por um tubinho!... mas isso depois logo se resolvia!
Ora bem, as aulas e tal, tudo muito bem! Se bem que eu ao ver as imagens pensava:
“- ná... se os camaradas pensam que eu vou tirar o regulador da boca, estão muito enganados!”
Lá se faziam uns exercícios com as famosas tabelas, lá ouvíamos o Tz a pensar:
“- granda sortudo”... “ ou "este tipo não existe!”... principalmente quando ele falava de como é giro mergulhar em grutas!... mas pronto, passou-se sem grandes problemas!
Depois de andarmos às voltas durante imenso tempo com as datas para começar com os mergulhos na piscina, cheguei mesmo a pensar:
“- estou safa! A coisa morre por aqui e não vou ter de dizer a ninguém que não me cabe na ideia entrar numa piscina toda artilhada, quanto mais no mar!”
1º mergulho - piscina
O problema começou a ser mais real quando já depois de vestidinha com o fatinho de neoprene e com o equipamento montado, o Tz faz o briefing e nos preparamos para entrar na água! Mas aí pensei:
“- ok, tu na piscina estás farta de andar... vou só ver como é que é”...
Tudo muito giro, com a garrafinha às costas, o pessoal todo em posição “tartaruga” ou seja, barriguinha para o ar e a dar aos bracinhos, até que uma alma caridosa lá nos ajuda a virar.
Neste ponto os problemas estão quase a começar.
Ora bem, regulador na boca e toca de meter a cabecinha no charco....
Depois de estar a lutar com o regulador, (eu juro que parecia que tinha de fazer um esforço enorme para conseguir negociar um bocadinho de ar).... Lá venho eu à tona (note-se que nesta fase temos água pela cintura...)
“- Tz, há um problema com o regulador... parece que está a travar o ar...”
“- (Tz com o meu regulador na boca) Não, está tudo bem!”
5 min mais tarde começo a pensar, como é que eu vou dizer a esta gente que eu os andei a enganar, que eu mergulhar só mesmo na banheira...
Nova tentativa:
“- Tz, o meu regulador não está bem...”
“- Está, está... isso é tudo psicológico!”
Eu a pensar para mim já com a cara debaixo de água: "Este gajo não dá uma abébia! Podia-me dizer que sim e que tentávamos noutro dia!"
(Nota: foi a melhor atitude que ele podia ter tido comigo! Se tivesse sido de outra forma, acho que não tinha lá voltado!)
Lá começamos com os exercícios, com o santo do Alex! Mal ele pergunta ok? surge-me uma dúvida: ora bem, eu sei dizer "ok" e sei dizer “há um problema”, mas como é que eu digo “é pá, estou um bocadinho ansiosa, para não dizer que estou cheia de medo, e por isso se calhar daqui a nada vou sair da água”... pois é, ou ainda não inventaram um sinal para isso ou o Tz esqueceu-se de o dizer no briefing! E agora... olha vai um “ok” e depois logo se vê!
Fazem-se uns exercícios (e quem diria que eu ia tirar o regulador da boca... por 5 milésimos de segundo, mas tirei) e depois aproximamo-nos da parte funda! Nesta altura estou eu a pensar:
“- boa, miúda! Esta experiência já ninguém te a tira!”
Quando começamos a descida ao 5 metros, os meus ouvidinhos não colaboram e ficamos por aí, na nossa primeira aula!
Não estava completamente convencida que o mergulho fosse a minha cena, mas por enquanto não precisei de dizer nada a ninguém!
2º mergulho – piscina
Mais uma vez, depois de já estar vestidinha e principalmente depois de no briefing o Tz dizer que íamos entrar na água “à filme” – sentados e de costas – tive a certeza que daquele dia não ia passar e já estava a preparar o discurso:
“- É pá Tz, podemos negociar...”
“- Aqui não há negociações e a democracia é muito bonita, mas é lá fora!”
(Nota: melhor atitude que podia ter tomado comigo!)
Perante isto, não me resta outro remédio se não mergulhar como o dive master dizia!
Cá vai disto!
Muito fixe! Tive ali um segundito a pensar:
“-Como é que é isto de respirar... ah já sei: inspira, expira! Boa!)
Segundo consta, mesmo antes de fazer o “ok” (que diga-se de passagem fiz com as duas mãos!) acho que estava com um sorriso enorme visível mesmo com o regulador!
Desta vez consegui descer à parte funda sem problemas de compensar e lá fizemos mais uns quantos exercícios que nunca na vida pensei fazer. Problemas com a flutuabilidade? alguns, já que só conheço dois tipos de flutuabilidade: tipo prego e tipo balão, apesar dos esforços do Alex, que à minha conta já tem um lugarzinho no céu!
É pena para além das fotos não haver um filminho! Eu tenho a nítida sensação que parecia um elefante bêbado! Os meus movimentos pareciam a coisa mais rude à face da terra, ou melhor, da água... põe uma mãe uma filha durante 10 anos no ballet, para depois, mesmo com a ausência de gravidade se ter a harmonia de um buldozzer!
E lá se passou mais um dia em que não tive de dizer, que o pessoal estava enganado e que eu não dava para aquilo!
Desta vez, ao sair da piscina pensei:
“-Isto se calhar até é engraçado”
3º mergulho – piscina
Estava eu a mentalizar-me:
“- Ok Cristina, já viste que isto não custa, até é engraçado, por isso nada de paranóias”
... pois sim. Mal o Tz diz:
“-e hoje vamos entrar com o “passo de gigante”...
pensei que tínhamos o caldo entornado e que era desta que ia para casa sem ter molhado o fatinho! Mas para variar lá resolvi ir montando o equipamento e pô-lo às costas sozinha (isto apesar de ter um suposto buddy livre e solto, que achou que o meu esforço dava umas boas fotografias... obrigadinha, Carlos!). Lá chegou a minha vez e a entrada na água não podia ter sido mais torta, mas o que conta é que já lá estava dentro!
Outra vez aos 5 metros, mais uns quantos exercícios, desta vez com Tz e a Tao, que de vez em quando via se estava tudo bem.
O problema surge quando o exercício consiste em tirar a máscara e dar uma voltinha à bóia e voltar a pôr a máscara. Aqui a piquena, já está a sentir-se um verdadeiro lobo do mar e a achar que era canja:
“- Ora bem, já fizemos “mascara parcialmente alagada de água” – sem problema; “mascara completamente alagada de água” – no stress; por isso tirar a máscara não deve ser muito diferente! Aliás quando vou nadar no mar não tenho óculos nem máscara e até me safo bem....”
Pois é... mas mal tiro a máscara, começo a ver a sombra de dois Tz (o que deve ter a ver com o facto de ser um bocadinho estrábica) e pior que isso, sentir a água a entrar no nariz, ter um congelamento cerebral e deixar de saber o que fazer ao ar! Devia parecer um peixe balão, porque só me lembro de inspirar e... o Tz como percebeu que eu estava aflita (talvez pelo facto de tentar tirar o regulador da boca e de estar a apontar para cima...) trouxe-me para a superfície...
Depois de ter pedido desculpas mil vezes, só queria um buraquinho para me enfiar! Eu bem sei que o Tz já deve ter mais do que um mega-crédito lá com os anjinhos por aturar maçaricos, mas à minha conta bem pode comprar uma herdade bem situada, mesmo ao lado de S. Pedro!
Ainda assim, voltei a pôr a máscara e voltei para os 5 metros e ainda voltei a tirar a máscara, não dei foi o dito passeio, porque já tinha tido muitas emoções!
Qual não é o meu espanto quando no final do mergulho o guru (Tz) me diz, que se quiser posso ir ao mar daí a 2 dias! Voltei a pensar cá para mim, este tipo para além de louco, tem pouco amor à vida, porque entrar no mar com uma “Tininha” é risco certo!
1º e 2º mergulho – Mar
Depois do convite do Tz e de uma noite muito mal dormida, a pensar,
“- como é que eu lhe vou dizer que só andei de barco uma vez e que apesar de já estar um bocadinho mais à vontade na piscina, acho muito pouco provável mergulhar no mar...”
lá cheguei à doca, montei os equipamentos e entrei no barco, sempre à espera do melhor momento para lhe dar a notícia...
A questão é que mal acabou o briefing eu já estava com o regulador na boca e alguém me estava a dizer
“- podes!”
... mas posso o quê?! Ah... entrar na água sentada e de costas... bem já agora aproveito e espero por dizer ao Tz que não vou mergulhar já dentro de água... assim sempre dou banho ao fato!
Ao entrar na água salta a máscara... ao contrário do que eu pensava, não foi drama nenhum, como não foi na segunda entrada em que saltou o regulador e bebi uma litrada de água salgada!
E depois... e depois é fantástico! Vimos moreias, uma buzina, polvos, estrelas do mar, milhões de conchas lindas, rosas do mar e muitos peixinhos que andavam em cardume e é uma das imagens mais bonitas que tenho guardadas! Lindo, mágico, natural!
Sempre com a melhor das buddies, a Sofia, que a determinada altura desapareceu na modalidade de flutuabilidade “balão” e que pôs o meu coraçãozinho a mil!
“- Boa Cristina, a primeira vez que entras no mar, só tens de ter a preocupação de olhar para uma pessoa e ainda assim conseguiste perdê-la!!”
depois ela lá apareceu e já não a voltei a perder de vista!
E está claro, nada como mergulhar com o mestre, que apesar de já ter estado naquele local, algumas mil e quinhentas vezes lá teve paciência para nos mostrar tudo!
Em termos de harmonia de movimentos... bem tenho um longo caminho à minha frente! Volta e meia lá encalhava numa rocha... as danadas aparecem assim de repente e nem dão tempo para a malta se desviar!
Resumindo que a narrativa já vai longa, cheguei a casa com uma moleza daquelas mesmo boas, com pintinhas vermelhas à volta dos olhos (porque me esqueci de compensar a máscara, mas isso são detalhes) e a fazer contas à vida: se não comer e se for viver para debaixo da ponte posso sempre fazer o Advanced e comprar um fato... ou então deixo tudo como está e compro só uma barbatanas!
Foi a melhor coisa que podia ter feito, nem sei se conseguirei algum dia dizer o quanto gostei com palavras mais assertivas e eloquentes! Estou a contar os dias para o próximo mergulho! (Tz, despacha-te!... ah, e guarda um lugarzinho para mim na próxima ida a Cabo Verde)